O DIA A DIA DO MOVIMENTO QUE TRANSFORMOU A VIDA POLÍTICO-ADMINISTRATIVA DA MAIOR CIDADE DO INTERIOR MARANHENSE


O DIA A DIA DO MOVIMENTO QUE TRANSFORMOU A VIDA POLÍTICO-ADMINISTRATIVA DA MAIOR CIDADE DO INTERIOR MARANHENSE

Neste 18 de janeiro de 2019 completam-se 24 anos o movimento popular imperatrizense que ficou conhecido como “Revolução de Janeiro”.

O povo invadiu cidadãmente a sede da Prefeitura e da Câmara Municipal de Imperatriz. Praticamente "enxotou" o prefeito do cargo. O Governo do Estado fez intervenção. Vereadores tentaram um golpe, que não vingou.

Poder-se-ia escrever mais sobre os fatos do dia a dia do movimento, sobre as repercussões e sobre os valores de cidadania que o sustentaram e que, por sufocação, não subsistiram nos anos seguintes.

Um dia, a Imprensa, os Intelectuais e as Instituições de Ensino Superior estudarão mais a fundo e farão as reflexões mais consistentes sobre os antecedentes, os correlatos e os consequentes desse movimento.

Um dia, os Poderes Públicos e a Comunidade reconhecerão o valor cívico-político da “Revolução”, tanto em sua época quanto agora e, também, nos dias que hão de vir.

A seguir, a ordem cronológica dos fatos, em resumo.

JANEIRO DE 1995, DIA 6 - Realizada a primeira reunião com vistas à criação do Movimento Fagulha, que desejava sensibilizar as autoridades municipais e estaduais para os problemas relacionados aos desmandos administrativos, à violência e à impunidade em Imperatriz. Doze pessoas tomam parte do encontro, na sede do Sindicato dos Professores. À frente dessa iniciativa, o engenheiro agrônomo José Cortez Moreira (o Moreirinha), filho do ex-prefeito Simplício Alves Moreira e voz sem medo na cobrança da resolução do crime de homicídio -- e de encomenda -- que vitimou seu irmão Renato Cortez Moreira, assassinado a tiros em 6 de outubro de 1993.

JANEIRO DE 1995, DIA 9 - Com o grupo ampliado, realiza-se a segunda reunião visando à criação do Movimento Fagulha e à realização de ato público contra os desmandos administrativos na cidade. Novo encontro é agendado para 12 de janeiro de 1995.

JANEIRO DE 1995, DIA 12 - Na terceira reunião, na sede do Centro de Estudos Superiores de Imperatriz da Universidade Estadual do Maranhão (CESI-UEMA), já são 66 os representantes de entidades e segmentos visando criar o Movimento Fagulha ou promover ato público contra os desmandos administrativos na cidade. Fala-se em interditar a rodovia Belém-Brasília, o aeroporto de Imperatriz, ocupar a Câmara e a Prefeitura, conversar com a governadora Roseana Sarney e, ainda, pedir apoio da Associação dos Municípios da Região Tocantina. Nova reunião marcada para o dia seguinte.

JANEIRO DE 1995, DIA 13 - Em nova reunião, são analisadas as propostas do encontro anterior e verificadas que conseqüências trariam as manifestações propostas, como, por exemplo, a interdição da rodovia Belém—Brasília. Reuniões específicas são convocadas para o dia seguinte.

JANEIRO DE 1995, DIA 14 - À tarde acontecem reuniões específicas, uma na sede da FUMBEART (Federação das Uniões de Moradores de Bairros e Entidades Afins da Região Tocantina), outra na sede do Fórum da Sociedade Civil de Imperatriz, visando às estratégias de atuação contra os desmandos administrativos na cidade. Marcada uma Assembleia Geral, a ser realizada na sede do Rotary Club, em 16 de janeiro.

JANEIRO DE 1995, DIA 16 - Depois de muita discussão de lideranças insatisfeitas com o governo do prefeito Salvador Rodrigues de Almeida, decide-se, em Assembléia Geral no Rotary Club, pela ocupação da sede da Prefeitura de Imperatriz por tempo indeterminado, mas sem pressões nem exageros, até que seja decretada intervenção estadual no município.

JANEIRO DE 1995, DIA 17 - Tudo acertado para o ato público do dia 18: a ocupação do prédio da Prefeitura de Imperatriz. A sede do Rotary Club se transforma no quartel-general do movimento.

JANEIRO DE 1995, DIA 18 - DATA-SÍMBOLO DA REVOLUÇÃO DE JANEIRO - Pela manhã, começa a distribuição de panfletos sobre a ocupação da Prefeitura de Imperatriz. Às 14h, com a praça Brasil tomada de populares, inicia a manifestação. Cerca de 20 mil pessoas participam do ato. Às 15h, a passeata chega em frente à Prefeitura, onde se encontra um pelotão da Polícia Militar, orientado a não usar violência. Começa a ocupação da Prefeitura. Da sacada, o advogado Ulisses de Azevedo Braga, presidente do Fórum da Sociedade Civil, lê o documento “SOS Imperatriz”, cuja cópia tinha sido enviada à governadora. A vigília continua à noite.

JANEIRO DE 1995, DIA 19 - Prossegue a vigília no prédio da Prefeitura de Imperatriz, ocupada desde a tarde do dia anterior. Às 3h (madrugada), surge boato de que o presidente da Câmara Municipal, vereador Antônio Rodrigues Salgado Filho, seria empossado no cargo de prefeito. Uma comissão, então, se reúne e decide ocupar também a sede do Poder Legislativo. A ocupação começa por volta das 6h da manhã e às 6h20 chega um pelotão da Polícia Militar, para garantir a ordem. Às 6h40, é eleita a direção da “Câmara Popular”. O presidente eleito é Geraldo Carlos, o Carlão, e o vice, Antônio Paulo Soares. A sessão dura 41 horas. Às 15h, a Câmara Popular recebe a visita da Comissão Executiva do Fórum da Sociedade Civil, de membros do Movimento Fagulha e de outras entidades participantes da ação popular que se tornaria conhecida como a “Revolução de Janeiro”.

JANEIRO DE 1995, DIA 20 - Prosseguem as vigílias nos prédios da Prefeitura e da Câmara de Imperatriz, ocupadas, respectivamente, nos dias 18 e 19 pela população imperatrizense. Às 2h (madrugada), os “vereadores” da Câmara Popular rejeitam a administração do prefeito Salvador Rodrigues. Às 2h35, homenageiam a Polícia Militar (PM), por meio do policial Genivaldo Alves Araújo. Às 3h45, participantes do movimento são homenageados pela Rádio Nativa FM, que lhes dedica músicas e os chama de “vigilantes da paz”.

Ao amanhecer, vem a notícia de que um interventor estadual seria indicado. Entidades e pessoas reúnem-se e discutem nomes para apresentar ao Governo estadual como opções para um deles ser nomeado interventor municipal. Entre os nomes, Guilherme Batista Ventura (militar), Lourenço Antônio Galletti (empresário), Edmilson Sanches (jornalista e técnico do Banco do Nordeste, à época a serviço em Fortaleza), Ildon Marques de Souza (empresário).

À noite chegou a informação de que o empresário Ildon Marques era o interventor nomeado pela governadora Roseana Sarney e que ele tomaria posse em 21 de janeiro de 1995. Os líderes do movimento são orientados a deixar os prédios, mas se negam a sair.

O vice-governador, José Reinaldo Tavares, antecipa, então, sua vinda a Imperatriz. Chega acompanhado do interventor nomeado e ambos discursam na Câmara e, depois, na Prefeitura. A sessão termina às 22h.

A posse oficial do interventor nomeado só ocorreria em 24 de janeiro de 1995.

EDMILSON SANCHES
edmilsonsanches@uol.com.br

Nas fotos, a Prefeitura e a Câmara Municipal de Imperatriz, que foram ocupadas pelos cidadãos, e a Praça Brasil, de onde a multidão saiu em caminhada cívica até a sede dos Poderes Executivo e Legislativo.